AddThis


30 de abril de 2011

Mudança de Mentalidades – Parte I (ou a 1a Série)

Quero falar de mudar de mentalidades e não, não estou a falar sobre mudar o quadro “O Pensador” para aonde a vossa tia-avó vos diz que imagens de homens nus deviam estar.
Oiço inúmeras vezes que o que está mal são as mentalidades: que temos é de mudar de mentalidade e que estas não se mudam por decreto.
É verdade e não É.

É verdade que temos de mudar de mentalidades, mas não é verdade que estas não mudam por decreto, pelo contrário, elas mudam muito mais facilmente por decreto. Obviamente não falo de leis tipo: “A partir de agora, é proibido falar sem pensar” (tenho a certeza que haveria logo uma associação de protecção a qualquer coisa a fazer queixa em Bruxelas). Falo antes de leis (e decretos) que empurrem (suavemente) a mentalidade da sociedade numa nova direcção. Uma direcção diferente da actual, que cada vez mais tende para uma desresponsabilização e uma mentalidade de “esse problema não é meu...” e “não tenho nada a ver com isso…”.

Mas antes de chegar ai, vou falar de mudar mentalidades sem decretos. Não funciona! Pura e simples. Como tenho a coragem de dizer isso? Porque ao longo de décadas e gerações nós não mudámos, basta reler as queixas políticas dos tempos dos nossos avós (ou há 50-70 anos atrás) e vemos que são exactamente as mesmas: corrupção, apadrinhamentos, mesquinhices, politiquices e problemas com sanitas. São as mesmas que nós, 2 gerações depois, temos (apesar de melhores sanitas). E porque nada mudou? (além das ditas sanitas)
Não mudou porque nós (e não me refiro apenas aos portugueses, mas sim aos humanos em geral) somos preguiçosos e resistimos à mudança (o que não é necessariamente uma coisa má).
Em conversas que tenho com pessoas uma geração acima de minha, sempre que falo em mudar, ouço frases do género: “Já sou muito velho(a) para mudar, isso agora é com a geração mais nova”, por outro lado a tal “geração mais nova”, pelo óbvio facto de ser “mais nova”, ainda não aprendeu os erros da geração mais antiga e com a sua irreverência própria segue fiel ao seu nariz e faz precisamente os mesmos erros que todos os outros fizeram antes de si. Quando finalmente têm experiencia para se aperceber dos seus erros, já está na idade de deixar isso para os mais novos. Assim, o ciclo vicioso continua e se nada fizermos, vai continuar.

Para verdadeiramente mudarmos de mentalidades, temos de começar por nós próprios (sim, eu sei, isto já foi dito vezes sem conta, mas pelos visto ainda não foi dito vezes suficientes). Temos de deixar de ser irresponsáveis e passar a assumir a nossa responsabilidade e culpa, temos de dizer: eu quero que isto mude e por tal EU vou mudar. Deixar de desculpas esfarrapadas de que já não tenho idade/mentalidade/força para mudar. Parar de pensar: “Os outros que mudem, eu já fiz a minha parte”. E é aqui que entram os tais decretos, para dar uma mãozinha, um empurrãozinho no sentido certo (pelos menos, claro, no meu ponto de vista, afinal é o meu Blog :)

E de que decretos estou a falar afinal? Estou a falar em cidadania e não me refiro aquilo que os franceses tentaram após a revolução; a história já demonstrou claramente que o conceito de “Cidadão” como uma pessoa culta, a par da política e do estado da nação, capaz de tomar decisões perfeitamente racionais, está no campo da utopia e pertence (pelo menos nos próximos séculos) aos livros de ficção científica. Estou a falar de algo mais suave, mas longe da total ausência de educação de cidadania que hoje se vive. Estou a falar em pelo menos educarmos os jovens nas escolas (já que somos incapazes de nos educarmos a nós próprios).

Ora pensem lá comigo. Do ponto de vista da Nação, dos conceitos políticos e de cidadania, qual é o documento mais importante deste país? Não, não é o jornal desportivo, também não é a TV Guia e certamente que não é o livro de Pedro Passos Coelho. Também não são as traduções das obras de Marx. Falo, claro, de um pequenino livro chamado Constituição da República Portuguesa.
Como é possível que uma pessoa chegue à idade de votar sem nunca ter sido “obrigado” a o ler? Para tirar a carta eu tive de ler o código da estrada, mas para votar basta atirar a moeda ao ar? Para aprender a trabalhar com o videogravador tive de ler o manual, mas para aprender sobre como decidir sobre o futuro deste país basta-me ler o jornal?
Como é possível que os alunos sejam obrigados a ler uma série de livros, mas ninguém se tenha lembrado de incluir a Constituição da Republica Portuguesa na lista de livros obrigatórios de leitura? O tempo em que dava jeito que o povo fosse ignorante já passou, acho eu…

Enfim, tenho mais para dizer, mas como na época moderna o tempo de atenção dos leitores é curto, vou interromper por aqui, continuo dentro de dias com a segunda parte.

Em resumo (TLDR: Too Long; Didn't Read):
A mudança de mentalidades começa sempre por nós, não há excepções. Não há caminhos fáceis. Para dar oportunidades às gerações futuras, eu tenho de fazer algo agora, hoje e não amanhã. Há décadas que empurramos os problemas para a geração seguinte. Se não me consigo educar, então vou pelo menos garantir que quem vem atrás saiba mais do que eu. Mas se EU não fizer nada, ninguém vai fazer, porque todos nós somos EU e ninguém é TU.

A segunda parte aqui: http://aragao.blogspot.com/2011/05/mudanca-de-mentalidades-parte-ii-ou-2a.html

1 Comentário:

Paulo Jorge disse...

Parabéns caro amigo pelo blog. É sempre salutar o abanar das consciências sobretudo nestes tempos em que ninguém quer saber de nada , ou quase ninguém e quase nada. É preciso acordar mas para isso é preciso fazer barulho e/ou acender a luz. Eu próprio, desde que criei a minha conta no facebook, tenho tido uma atitude mais crítica e intervencionista em matérias sócio-culturais e políticas. Força aí Aragão ! Abraço.