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4 de maio de 2011

Mudança de Mentalidades – Parte II (ou a 2a Série)

Há uns tempos atrás levei um balde de água fria (leia-se uma dose de realidade), quando em conversa com um conhecido meu este me diz que nunca leu nem vai ler a constituição, que tem mais que fazer. No entanto, 5 minutos depois reclamava sobre um problema de justiça e dizia que se os políticos fossem competentes já tinham intervindo no assunto, sem sequer se aperceber que a separação de poderes (expressamente proibida pelas constituição) impedia tais actos. Quando lhe disse que não era possível, porque a constituição não o permitia, ouvi a resposta: “lás estás tu outra vez com a constituição, tou me marimbando para isso.”
Todos nós somos ignorantes numa coisa ou noutra ou até em muitas (certamente o meu caso), mas querer permanecer ignorante é burrice; ter orgulho na ignorância é estupidez.

Quantos de nós já nos demos ao trabalho de a ler? Não se trata de um livro gigantesco e impossível de compreender, pelo contrário têm cerca de 70 páginas de um texto simples sem estar escrito numa linguagem crypto-jurídica. Com calma lê-se em uma semana, com vontade lê-se em um dia. Certamente já lemos livros muito mais chatos e com muitas mais paginas, mas a constituição? Nah, isso é para os políticos lerem, porque eu, português de gema, não preciso de ler nada disso, afinal eu nasci a saber todos os meus direitos.
E depois claro, quando políticos bem-falantes na campanha para as presidenciais, dizem barbaridades e afirmam que vão fazer isto e aquilo, apesar de expressamente proibido pela Constituição, o português ignorante bate palmas e berra com fervor que sim, enquanto uma minoria troca olhares de espanto e pergunta se está tudo doido.
Para mim, mudar de mentalidades é tentar inverter estes grupos. Que quando políticos digam barbaridades e gozem na nossa cara, que seja uma maioria a parar e perguntar se o gajo está maluco e apenas uma minoria a aplaudir.
De cada vez que um politico sobe ao pódio e diz disparates sobre uma chuva de aplausos, os outros políticos sorriem para si e pensam: “Este povinho é mesmo burro, caiem em todas”. Se de cada vez que um político (ou outra personagem pública) dissesse disparates e uma razoável parte das pessoas lhe chamasse parvo, muito rapidamente o discurso mudava, mas enquanto, nós os eleitores, recompensarmos a estupidez e demagogia com os nossos votos e aplausos, só reforçamos esse comportamento.

Como podemos nós então, começar a mudar esta mentalidade? Não é fácil, não existem soluções simples para problemas sociais complexos, mas podemos começar por ensinar a Constituição nas nossas escolas. Não estou a dizer para a ensinar quando as crianças têm dez anos, não precisamos de papagaios que consigam recitar a Constituição como se fosse a tabuada, precisamos de pessoas capazes de pensar por si próprias, só assim podem avaliar correctamente aquilo que os outros lhes dizem para pensar. Para mim, a melhor altura para uma disciplina de Cidadania seria no 11º ano (+- um ano). Os alunos já são perfeitamente capazes de entender e discutir estes assuntos. Mais, estes alunos estão quase na idade adulta, ou seja na idade em que vão poder exercer o seu direito de cidadão e votar. Vamos ao menos tentar lhes explicar porque raios é que devem votar, porque é isso importante e o que devem ler e estudar antes de o fazer.
Não quero que recitem os últimos 30 exemplares do Diário da República, mas vivo em horror a pensar que alguém ache que o Diário da República é o livro da Menina República a onde descreve os encontros amorosos de vampiros e lobisomens e que a 2ª Série é o segundo volume da trilogia.

Uma disciplina de Cidadania, que pode perfeitamente ser de passagem automática já que o objectivo não é impedir o direito dos alunos a permanecerem ignorantes (já percebi que alguns tem orgulho nisso), mas sim dar um empurrãozinho na direção certa, na tal mudança de mentalidades. A disciplina pode inclusive ter componentes práticas. Certamente toda a gente sabe que pode ir (e participar) nas reuniões da junta de freguesia e das camarárias. Mas digam lá, quantas vezes foram a uma dessas?
Quantas vezes berramos a bom som que isto devia mudar, que queremos mudanças, mas nem sequer nos damos ao trabalho de ir a uma reunião camarária e começar ai as mudanças? Pois, isso já dá trabalho, já implica levantar o rabinho do assento, parar de berrar e até, quem sabe, sejamos obrigados a ler alguma coisa, que pavor! O que nós queremos é berrar para que alguém faça a mudança por nós. Não funciona!
Ao mandarmos os alunos fazerem um trabalho prático, algo do género de ir a 2 ou 3 dessas reuniões e depois explicarem o que ouviram, o que gostaram e (principalmente) o que não gostaram e queriam ver mudado, estamos a introduzir os nossos jovens no mundo da política e a darmos-lhes a possibilidade de começar a mudar as coisas. Isto sem a influência (talvez nefasta) de partidos políticos e ideias pré-concebidas.

Mas, uma vez mais, isto começa em nós, sempre por nós. O primeiro a mudar tem de ser EU! E não TU!
Para que eu possa dar a possibilidade aos jovens de mudar o mundo, eu tenho de começar a mudá-lo. Esta disciplina de cidadania não vai surgir espontaneamente, alguém vai ter de a aprovar, de a planear, de muitas coisas, e como isto não é uma ditadura e eu não sou o ditador (para alivio de muitos, acreditem), tenho de mudar as mentalidades daqueles que me rodeiam, este texto é precisamente isso, a minha forma de tentar espalhar esta mudança, de procurar outras pessoas que concordem com isto e que juntos possamos começar a mudança.

Em resumo (TLDR: Too Long; Didn't Read):
Temos uma enorme ignorância de cidadania, além de analfabetos somos ignorantes em questões de cidadania. Devíamos ensinar nas escolas a Constituição, a nossa actual estrutura política, como se processam as eleições, como são escolhidos os cargos políticos, o que são as listas de deputados, enfim toda a máquina política. Só assim, sabendo como ela funciona, podemos tomar decisões correctas de como a mudar e minimizar o número de vezes em que somos levados como lorpas.

2 Comentários:

Anónimo disse...

Gostei mesmo. Mas... já pensaste porque é que a tua solução não é convertida em acção? Já te interrogaste sobre sucessivas reformas no ensino que indicam disciplinas de Educação Cívica, Direito para a Cidadania, Educação Sexual, etc e nunca se conseguem implementar? Não será também de interesse para o estado manter um certo nível cultural de forma a não existirem interrogações sobre o que nos rodeia? ...

O Aragão disse...

Um não sou grande fã de teorias de conspiração (excepto os EUA, claro :), mas isso não quer dizer que não as haja. Mas, normalmente não é preciso, a mentalidade de quem está em altas posições dita quem sobe e assim, por norma, apenas aqueles que partilham essa mentalidade tem hipótese de chegar a posições altas. Uma conspiração, sem conspiradores.

Neste caso, eu vejo vários motivos para que isto nunca tenha sido implantado. Um deles é que o sistema democrático cria demasiado ruído para chegar a conclusões. Se perguntares a 100 pessoas quais os conteúdos que deviam fazer parte desta disciplina, com sorte terás 99 respostas diferentes, com azar serão mesmo 100. Sem consenso e sem grande vontade popular para que isto aconteça (leia-se: não dá votos) os políticos também não fazem questão e deixam o assunto cair no esquecimento.

Claro está, que se um gajo for incompetente e o único motivo que tem o cargo que tem é porque se sabe mexer dentro do partido, a última coisa que ele realmente precisa é ensinar os outros a perceber como ele é incompetente. É aqui que entra a vontade popular, para obrigar os políticos a tomarem decisões que eles não gostam.